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De melhores a piores em 64 anos.


Por Frederico Mendonça de Oliveira

Músico e Compositor.


Corria 1958. No antigo estúdio da Odeon reuniam-se, no dia dez de julho, o flautista Nicolino Cópia, o Copinha; o baterista Milton Banana; um instrumento fazendo um discreto contraponto, parecendo um trombone, e certamente seria o Norato ou o Raul de Barros; um pequeno grupo de cordas, extremamente bem conduzido. Nos arranjos e ao piano, um jovem de 31 anos chamado Antônio Carlos Jobim. Um violonista e cantor assinava a gravação como intérprete principal: João Gilberto Pereira de Oliveira. O título da obra era Chega de Saudade, composição do tal Antônio Carlos com letra de um tal de Vinícius de Morais. Era lançada a Bossa Nova, que logo iria contagiar o mundo, levando até o jazz a se influenciar pela inesperada sofisticação brasileira. Detalhe: tratava-se de um samba, mas muito diferente... Enter.

Hoje, 64 anos depois, já não estão entre nós os que realizaram tal façanha. O último a subir para o andar de cima foi justamente o intérprete principal, que chamavam de João Gilberto. Ele se despediu dessa vida em 2019. Mas a obra desses dois principais integrantes da tal gravação já foi devidamente soterrada desde o advento da Tropicália, fim dos anos 1960. Curioso, mas a Bossa Nova ganhou o lado civilizado do planeta, Tom e João são idolatrados no primeiro mundo até hoje... mas ninguém mais os conhece por aqui. Uma bem articulada internacionalmente canção de mercado, que começou no início da década de 1960 e foi expirar logo depois da “redemocratização”, em 1986, e que foi denominada MPB, significando “música popular brasileira” – mas que era apenas canção, com a hipertrofia do valor do intérprete-cantor-compositor – foi imposta de forma irresistível pelo poderoso esquema de comunicações que à época tomava conta do País, associando multinacionais do disco, imprensa e televisão, uma verdadeira força-tarefa. Enter.

O Brasil foi amputado de seu grande valor musical. Hoje, quase que somos condenados a ouvir amadores cantando – ou “cantando” – e se acompanhando ao violão canções que fizeram sucesso de quatro décadas pra cá. Tocam, com todos os cacoetes de amadores que só sabem do violão o essencial do mínimo, Zé Ramalho, Lulu Santos, Djavan, Rita Lee, Legião Urbana, Cazuza e outras coisas do fim do século passado. E isso, a que chamam de “música ao vivo”, ocorre em bares e botequins, para freqüentadores que comem, bebem e falam como que brigando com a tal música. Para coroar essa titica insuportável para ouvidos maduros, não aparece samba no repertório desses menestréis de ninguém. Um sambinha, que seja. Quando aparece, é ignorado pela galera e causa espanto a quem porventura conheça um pouquinho que seja de música. É que a intervenção alcançou seu objetivo: acabar com o samba, nosso ritmo essencial, nossa identidade musical, nossa maior arte na música popular. Enter.

Hoje o negócio é o ritmo de soul, uma espécie de marcha que foi lançada também na década de 1960 e veio puxada por nomes como Quincey Jones na área do jazz e Jimmy Webb na área da canção. Ficamos submetidos a essa canseira de ritmo, que os amadores do mexinflório da tal “música ao vivo” conseguem tocar usando o violão de cordas de nylon como se fosse violão folk. Quanto a harmonia, três ou quatro acordes são suficientes para abrangem a quinquilharia cancionística que nos enfiam ouvidos adentro. Tocar samba não é para amadores, e aí está o busílis. Enter.

João Gilberto e Tom Jobim hoje são tocados por músicos que buscam evolução. Seja do mais iniciantde até o mais provecto, o repertório da Bossa Nova impõe conhecimento e apuro, e isso não é coisa que hoje possamos encontrar em bares e restaurantes. Parece até que nos castigam quando, indo a um endereço tomar uma gelada pra espairecer, somos obrigados a engolir a massamorda dos amadores que dominam o ambiente. Profissionais do copo bebem de pé, em balcão, e preferem dias como segunda-feira para sua excursão etílica. Pelo menos ficamos livres de ouvir o repertório regressivo desses amadores involutivos e invasivos. Enter final.

Se considerarmos ser a tal música ao vivo o que restou de nossa história musical, se ela é a realidade hoje, seremos os piores, simplesmente considerando o tamanho do abismo entre a modernidade de João e Tom e os atuais menestréis de ninguém. Sabem aquele sol maior que se arma na base do braço do violão e que ocupa três dos nossos dedos da mão esquerda? E aquele ré lá embaixo, com três dedos também, o tal do “ré bicudo”? E tem o dó maior, que fazemos usando três dedos também... Pois é: musiquinha pra iniciantes; poucos vão além dessa harmoniazinha de primeiras aulas de violão pra criança. Mas, curioso, é o que impera hoje, de forma ditatorial, obedecendo a ordens de não se sabe quem nem vindas de onde. E nossos ouvidos são tratados como penicos sob essa enxurrada de insignificância cancionística, que já está caindo de velha mas que nos é imposta sem dó nem piedade! Acredita-se que dessa não sairemos mais. Até porque o rádio acabou, o disco já era, a cultura se esfarelou parece que para sempre. Desde Tiririca, apareceram coisas várias e pontuais, todas elas caça-níqueis de 240 horas de duração: Egüinha Pocotó, Ah!, se eu te pego, Jojô Todinho, essas misérias. Não temos mais a que recorrer. Os que sabem se fecham em seus refúgios e tratam de estudar coisas que levem a aperfeiçoamento. O resto é silêncio, porque ruídos não contam. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!


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